Existem momentos na vida profissional que marcam a trajetória de forma definitiva. Para mim, um desses momentos aconteceu em 1993, quando tive a oportunidade de sentar diante de Emerson Fittipaldi pela primeira vez. A lembrança segue viva, como se tudo tivesse acontecido ontem.
Naquele ano, eu havia acabado de assinar contrato com a TV Manchete, hoje RedeTV, para narrar as corridas da Fórmula Indy. Era um desafio enorme, porque eu acompanhava mais outras categorias do automobilismo e ainda não dominava os detalhes da Indy. Para estrear no projeto, viajei para a Austrália uma semana antes da primeira prova, em Surfers Paradise.
Foi ali, no hotel onde Emerson estava hospedado, que marcamos um bate-papo para falar sobre a categoria, o calendário e toda a preparação daquela temporada. Sentamos em uma mesinha ao lado da piscina. Eu estava com um bloco cheio de perguntas, muitas delas básicas, quase ingênuas para quem vivia o universo da Indy de perto. A verdade é que eu estava estudando intensamente havia poucos dias e queria absorver cada informação possível.
Mesmo assim, fiquei imaginando a impressão que eu poderia estar passando. Emerson, sempre elegante e paciente, respondia tudo com calma. E foi justamente no final da conversa que recebi uma das frases mais marcantes da minha vida profissional.
“Você é piloto?”
Respondi que não. Nunca fui piloto, apesar de ter tido vontade. Então ele completou:
“É que algumas das suas perguntas parecem de piloto.”
Aquele comentário simples mudou tudo. Sai dali com uma confiança enorme, com a sensação de que o esforço para aprender cada detalhe estava valendo a pena. Voltei para a pista com o peito cheio, pronto para mergulhar ainda mais fundo na categoria.
E mergulhei. Passei os dias seguintes estudando os carros, entendendo as equipes, conversando com jornalistas, pilotos e com todos que viviam a Indy diariamente. Naquela época, também tínhamos Raul Boesel no grid, o que ajudava a entender ainda mais os bastidores.
Chegava no hotel muitas vezes às nove ou dez da noite, depois de passar o dia inteiro no autódromo, circulando pelos boxes, observando treinos, fazendo perguntas — algumas óbvias, outras nem tanto. Era trabalho duro, mas era um prazer imenso. E esse início, tão intenso e tão improvisado, se transformou em um dos períodos mais especiais da minha carreira.
A partir dali, vieram os circuitos ovais, as etapas nos Estados Unidos e um aprendizado contínuo. Mas nunca esqueci aquela primeira conversa na Austrália. Às vezes, um comentário simples, vindo de alguém que você admira, é suficiente para acender uma chama que nunca mais se apaga.
Essa é uma das muitas histórias que continuam moldando quem eu sou no esporte e na vida.